A Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia da covid-19 em 11 de março. Desde então, cresceu o consumo de internet, o engajamento em redes sociais e fez surgir um novo tipo de consumo: o de shows (muitas vezes ao vivo) transmitidos pelas redes sociais dos artistas. As lives oferecem entretenimento, intimidade e conexão, e são válvulas de escape ideais para aliviar o estresse imposto pelo confinamento. "O que pode funcionar tão bem quanto se conectar aos ídolos, em tempo real, e ser convidado a entrar em suas casas e em sua intimidade?", declarou Karine Karam, professora de pesquisa e comportamento do consumidor da ESPM Rio. Nesta quinta-feira (23), por exemplo, cantores como Thiaguinho, Pablo Vittar, Fernanda Abreu e a dupla Maiara e Maraísa fizeram apresentações exclusivas. E todas com diversos parceiros e patrocinadores. Novo mundo, mas com antigas restriçõesEsse "novo mundo" ainda mantém antigas restrições. Desde a semana passada, uma polêmica invadiu a internet: motivado por "dezenas de denúncias de consumidores", o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) decidiu abrir uma representação ética contra as ações publicitárias realizadas pela Ambev nos shows do cantor sertanejo Gusttavo Lima. O Conselho, porém, foi acusado de ter denunciado o cantor por motivações políticas ou para defender emissoras de televisão, que estariam perdendo audiência para as lives. Gusttavo Lima, por sua vez, afirmou que "não faria novas lives para ser censurado" e que críticas "não ajudavam em nada". O cantor, que chegou a ser defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), chegou a listar, em suas redes sociais, 25 instituições que haviam recebido doações arrecadadas em suas apresentações. Conar nega censuraNo começo desta semana, o Conar decidiu explicar melhor seu posicionamento. Em comunicado, afirmou que "atua exclusivamente no exame do conteúdo de publicidade" e que não cuida do conteúdo artístico das apresentações: "em programas, lives ou qualquer outro tipo da manifestação artística ou cultural, apenas as peças publicitárias são objeto de análise", eximindo-se de uma possível acusação de censura. Mas por que tanto barulho? Uma fonte ligada ao Conselho afirmou que "esta é uma situação nova" e que cada caso pode ser analisado de forma diferente. O Conar segue regras do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, produzido pelas próprias empresas anunciantes e grupos de mídia. Em seus artigos, o Código diz, por exemplo, que a "publicidade não deverá induzir, de qualquer forma, ao consumo exagerado ou irresponsável" de álcool e que o "Código encoraja a realização de campanhas publicitárias e iniciativas destinadas a reforçar a moderação no consumo" de bebidas alcoólicas. Segundo as regras do código, os cantores não poderiam aparecer consumindo bebidas e todas as lives patrocinadas por cervejas, por exemplo, deveriam conter uma das frases de advertência, como "beba com moderação", "evite o consumo excessivo de álcool" ou "não exagere no consumo". É importante lembrar que o Conar não exerce poder de polícia e sequer pode multar marcas e pessoas envolvidas em suas ações. As decisões tomadas pelo Conselho de Ética são apenas recomendações, que podem ou não ser acatadas. Em 2019, o Conar abriu mais de 300 processos éticos, 70% deles motivados por denúncias de consumidores. Puxão de orelha surtiu efeitoApós o anúncio de abertura do processo contra a Ambev e o cantor Gusttavo Lima, a cervejaria divulgou um comunicado afirmando que foi enviado um guia aos artistas, reforçando "as regras do Conar". "Estamos reforçando as regras dado esse novo contexto de entretenimento virtual e estamos mais do que nunca comprometidos com o consumo responsável de nossos produtos", declarou a empresa. O "puxão de orelha" parece ter surtido efeito. Na segunda-feira (20), por exemplo, a marca esteve presente na live do projeto Amigos, feita pelos cantores Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leonardo. Em certo momento, Zezé di Camargo, ao falar da cerveja, disse que "a produção não deixou ele beber ali". "Puseram a Brahma aqui, mas não deram o abridor", brincou. Restrições também do YouTubeOutras lives estão sofrendo com restrições, mas do YouTube. A live da dupla sertaneja César Menotti e Fabiano, por exemplo, foi retirada do ar porque "precisaria se adaptar às regras da plataforma", existentes desde que o programa de parcerias entre a plataforma e os artistas foi criado, em 2007. Segundo a reportagem de Tilt, canal de tecnologia do UOL, a regra descumprida impede que criadores de conteúdo veiculem inserções publicitárias nos mesmos moldes das vendidas pelo YouTube a anunciantes. O conteúdo da dupla sertaneja tinha banners de marcas que apareciam no rodapé do vídeo ou anúncios que entrecortavam a transmissão. Leia também |
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