"O tempo todo ela ficou agarrada a uma girafa de pelúcia e isso comoveu bastante toda a equipe, porque a gente viu o quanto de inocência e sofrimento aquela criança tinha passado" Paula Viana, enfermeira obstetra que acompanhou a menina de dez anos, que engravidou após ser estuprada e realizou um aborto autorizado pela Justiça Uma menina de dez anos foi vítima de abuso sexual pelo tio desde que tinha seis anos no Espírito Santo. Engravidou. Buscou ajuda para interromper a gravidez em um hospital. Não conseguiu. Teve que ser transferida para outro estado. Pôde, enfim, ter a gestação legalmente interrompida, ainda que, do lado de fora, grupos religiosos fundamentalistas se manifestassem contra a realização do que lhe era de direito. Nesta semana, foi impossível não se comover com a dramática história da menina de São Mateus. O aborto no Brasil é permitido em três condições: em caso de estupro, de risco de vida para a mãe e de anencefalia do feto. O caso da menina se enquadrava nas duas primeiras condições. Universa dissecou o tema mostrando a saga de uma criança para fazer um aborto legal no Brasil, esclarecendo as principais dúvidas sobre o assunto e trazendo nossas colunistas para o debate. Aqui, mostramos o que aconteceu e ainda pode acontecer com alguns dos principais envolvidos nessa história. 1. A menina. Após ter seu nome revelado pela militante de extrema-direita Sara Giromini, conhecida como Sara Winter, a menina vai ganhar uma nova identidade. Ela, que queria voltar pra casa e jogar futebol, deve mudar de cidade e entrar num programa de proteção a vítimas de violência. Segundo a enfermeira Paula Viana, que acompanhou a criança, as mudanças já podem ser notadas: "Ela chegou muito séria, rosto de tristeza com tudo que estava passando. Depois do procedimento, se mostrou outra menina, com alívio, olhos alegres toda vez que recebia presentes". 2. O médico. O obstetra Olímpio Moraes, diretor do hospital de Recife onde a interrupção da gravidez da menina foi feita, ganhou os holofotes ao garantir o aborto seguro e legal. Já havia passado por um episódio parecido em 2009, mas aponta uma invasão da religião em assuntos que deveriam ser restritos à saúde pública. "Se fosse uma criança de classe alta, ninguém ficaria sabendo: a menina seria preservada. Mas, quando a pessoa é pobre, essas pessoas tentam se aproximar e se promover politicamente promovendo ódios". 3. O governo. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, pediu ao Ministério da Justiça uma investigação sobre o vazamento de dados da menina. No ofício, alega que a atitude de vazar os dados fere diretamente o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Código Penal Brasileiro. O PSOL protocolou um pedido para que Damares preste esclarecimentos na Câmara sobre o vazamento, já que haveria suspeitas de que as informações tenham sido vazadas pela ministra. 4. A extremista. A militante de extrema direita Sara Giromini publicou nas redes sociais informações sigilosas sobre a menina, como nome e o hospital em que ela realizaria o aborto permitido por lei. Por isso, corre risco de voltar para a prisão. Desde então, Sara teve seu perfil no YouTube derrubado pela plataforma, foi alvo de uma notícia-crime protocolada por deputados estaduais do DF e de um pedido de investigação no Ministério Público Federal. Uma petição online já reúne mais de 100 mil assinaturas pela abertura de um processo contra ela. 5. A rede de apoio. Em contrapartida aos ataques de religiosos fundamentalistas à menina e à equipe do hospital, grupos de mulheres e moradores de Recife levaram dezenas de presentes para a menina como forma de apoio e carinho. Nas redes sociais, mulheres postaram fotos suas aos dez anos, na campanha Desafio da Infância Roubada, para sensibilizar a sociedade sobre os impactos de uma gestação em uma garota dessa idade. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário