Links do mês #123 e uma news para quem ama comédia do absurdoMeu top comédias nonsense de todos os tempos.
Nem lembro o ano, só sei que foi no Telecine, aquilo que os Maias chamavam de “TV à cabo”, que assisti pela primeira vez ao filme Corra que a Polícia Vem Aí. Vocês sabem qual é, né? Aquele de um policial atrapalhado, interpretado pelo incrível Leslie Nielsen, onde ele busca resolver crimes enquanto é atravessado por situações absurdas. Eu amei cada segundo daquele filme. Esse, e os outros dois filmes da trilogia me abriram os olhos para um novo tipo de comédia. O meu repertório de comédias era pequeno, pois consumia apenas o que aparecia na TV aberta ou em sitcoms americanos. Casseta & Planeta tinha seus momentos, assim como Chaves e Chapolin, mas nada tinha me feito rir como esses 3 filmes. Uma nova era começava. São chamadas de “comédia do absurdo” porque elas pegam situações normais do dia a dia e as transformam em uma situação absurda ao ignorar causa e efeito esperados. O gênero rasga a lógica convencional, buscando o riso justamente por quebrar com a expectativa do público sobre o que seria esperado para determinada situação. Filmes bem feitos desse gênero são uma aula de criatividade. Eu vou curtindo cada cena esperando ser surpreendido, imaginando em que momento e em qual ação eles vão subverter a lógica para fazer humor. Meu cérebro se regojiza a cada surpresa. “Como eles pensaram nisso?” Cartunistas que eu mais admiro, como André Dahmer e Laerte, fazem isso diariamente. Transformam o comum em absurdo, nos convidando a olhar para aquela situação através de um outro lugar ou de uma forma diferente. Às vezes, o twist tem o objetivo de criticar ou zombar algo, alguém ou uma situação que todos nós vivemos. Em outros momentos é só uma bobagem aleatória. Quando o Tenente Frank Drebin está procurando por provas sorrateiramente no escritório de um suspeito, e, ao abrir uma gaveta e falar “bingo”, somos levados a pensar que ele encontrou as provas que procurava. Mas não: Os roteiristas pegaram esse clichê — falar “bingo” quando alcançamos algo — e tiraram dele esse significado. Ou seja, nos enganaram. É um gênero que constantemente nos engana. Usa metalinguagem, quebra de expectativa e o absurdo para nos tirar da zona de conforto e mostrar que tudo pode ser reinterpretado de uma outra maneira. Com o tempo fui descobrindo outros filmes dessa mesma categoria, e na maioria das vezes eles queriam era rir da própria indústria. Os filmes, assim como a vida, são cheios de clichês — ainda mais os filmes do século passado. O gênero se aproveitou bem disso para criar filmes que fazem graça dos “padrões” hollywoodianos. Os filmes Top Gang I e II certamente passaram pela Sessão da Tarde de vocês. Neles, Charlie Sheen tira sarro dos filmes de heróis militares americanos, como Rambo. Top Secret! e Spy Hard fazem paródia com os filmes de espionagem, enquanto os filmes Todo mundo em Pânico (que são os que menos gosto) brincam com gênero terror e suspense. Space Balls faz comédia com Star Wars e ficção científica e Airplane! 1 e 2 zoam com os filmes de tragédia. Viciado que eu sou em comédia, fui atrás de outros conteúdos desse gênero. Descobri coisas bem interessantes. A primeira foi que a maioria desses filmes foram feitos pela mesma galera: David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, e que eles já tinham uma série que daria origem à trilogia Corra que a Polícia Vem Aí. A série se chama Police Squad (até pouco tempo todos os episódios estavam no Youtube, não sei se ainda estão). A lógica é a mesma dos filmes, mas em seis episódios de 20 minutos. O plot é o mesmo, os atores também, mas as piadas são outras. Como aqui não é um filme e sim uma série lado B, a liberdade para o absurdo me parece ainda maior. Um exemplo: naquela época, era muito comum as séries terminarem com a tela congelada enquanto os créditos passam na frente. Então, no final de cada episódio, eles quebram com essa lógica e fazem graça com isso, com os próprios atores ficando imóveis enquanto a cena se desenrola: Não é genial? Outro clássico que encontrei foi Monty Phyton. O programa de TV era um conjunto de esquetes absurdas e com uma crítica social mais afiada, e foi ao ar na Inglaterra dos anos 70. São os mais famosos do gênero, então imagino que você já ouviu falar. Eles fizeram várias coisas além do seriado, mas esses dois filmes são os que valem mais: Monty Python and the Holy Grail e Monty Python’s Life of Brian. No final dos anos 90, veio Baseketball (uma comédia sensacional sobre um novo esporte americano, mistura de baseball com basquete), também criado pelos mesmos dos filmes acima (irmãos Zucker). A partir daí a fonte parece que secou. Tirando os filmes Todo Mundo em Pânico, senti que eu já tinha assistido tudo que existia desse gênero. Nacho Libre veio para dar um respiro no meio ao deserto do absurdo, com Uma Família da Pesada e South Park logo ao lado. Outro é um filme dessa época, feito pelo The Onion, é o The Onion Movie. Basicamente é um grande telejornal que traz notícias absurdas e usa o formato para rir do contexto social da época. A minha percepção era que essa arte havia morrido, que ela não podia ser aplicada aos dias de hoje. A comédia do constrangimento (The Office e seus primos) vieram com força e o absurdo havia se transferido para dentro dessas comédias, com um espaço menor, obviamente. Passam se vários anos e eu descubro uma comédia com um nome ruim e com um thumbnail menos chamativo ainda, mas que reacendeu minha esperança. Em They Came Together, Paul Rudd (o Homem-Formiga) e Amy Poehler (Parks And Recreation) estrelam uma paródia sobre as comédias românticas dos anos 2000. Foram as 2h que eu mais ri na última década. Fui no Google ver quem escreveu tamanha obra e descobri uma galera que já tinha feito várias coisas na mesma batida. O primeiro filme deles é Wet Hot American Summer, que depois se desdobrou em duas séries na Netflix: Wet Hot American Summer: First Day of Camp e Wet Hot American Summer: Ten Years Later. O filme conta com atores mega famosos no começo das suas carreiras, como os próprios Paul Rudd e Amy Poehler, além de Bradley Cooper e outros que não sei o nome mas vocês reconhecem na hora. Recomendo demais. Dessa mesma galera também veio Childrens Hospital, uma série que retrata a vida de médicos de um hospital pediátrico extremamente disfuncional. Os episódios tem só 10 minutos, mas o absurdo está presente em todos os momentos. Essa série ganhou um spin-off chamado Medical Police, na Netflix, e que também vale muito. A mesma doideira do hospital de crianças, mas um pouco mais “leve”, já que está na Netflix e não no Adult Swim. Recomendo também Burning Love, uma paródia com os programas tipo The Bachelor. Essa eu só achei no Stremio. Por fim, mas não feito por esses mesmos roteiristas, tem genial e maravilhosa I Think You Should Leave. A série também está na Netflix e é formada apenas por esquetes sem conexão umas com as outras. Aqui o absurdo tem mais espaço e muitas vezes não tem nenhum roteiro por trás, é só o absurdo pelo absurdo mesmo. Ainda assim é muito bem feito e engraçado. Esses novos conteúdos trouxeram ânimo para o gênero, e espero que tenham inspirado artistas a criarem mais obras assim. Pode parecer que as coisas andam bem, pois foi lançado um novo Corra que a Polícia Vem Aí, mas ele é ruim demais, e nem me deu esperanças de uma nova era. Para quem gosta de criatividade, e também de humor, recomendo a comédia de absurdo como um exercício para olhar para os padrões do dia a dia e enxergar forma de quebrá-los. Inovar é quebrar com os clichês que nos cercam, e as pessoas que escrevem e filmam essas obras nos mostram que as mais banais das rotinas podem ser subvertidas e transformadas em situações completamente diferentes. Basta mudar uma palavra na frase, ou fazer um personagem levar ao pé da letra um comando, que novos universos se abrem para a imaginação. Não tem como ser criativo sem se desfazer dos padrões que nos cercam, e talvez uma comédia besta e sem sentido pode nos ajudar com isso. Espero que gostem dos links:
Oie. Meu nome é Luciano Braga. Sou realizador de diversos projetos criativos nas áreas da comunicação, comédia, ficção e impacto social. Boto minha energia em iniciativas que desafiam minha criatividade, que empoderam pessoas e que deixam um legado positivo no mundo. Quer me conhecer? Vem no meu Instagram.
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terça-feira, 30 de junho de 2026
Links do mês #123 e uma news para quem ama comédia do absurdo
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