Se você já cometeu o erro de pedir a alguém para comprar qualquer peça de roupa sem experimentá-la antes, sabe que a chance de ficar apertado aqui ou folgado ali é quase certa. Pois é isso que o Brasil anda fazendo para pesquisas genéticas: quando precisa fazer estudos, pega de outras nacionalidades seus genomas emprestados. Como os genomas são espécies de livros de receitas com os dados genéticos que definem as características de quaisquer seres vivos, você já deve imaginar que usar as informações de um povo para aplicar à nossa população só pode nos deixar de calças curtas — ainda mais considerando quão miscigenado somos. Mas não leve a mal. Não é preguiça de abrir um armário repleto de opções para escolher. Nosso pecado é justamente não ter alternativa. Mas isto está mudando, porque duas pesquisadoras resolveram sequenciar os genomas de milhares de pessoas e criar um banco com o mapeamento do DNA do brasileiro. O que rolou?Não tem muito segredo. Se 99,9% do genoma do ser humano é idêntico, é nesse 0,01% que reside toda a diferença que faz de você alguém completamente diferente do seu vizinho. As pesquisadoras Lygia da Veiga Pereira e Tábita Hünemeier, ambas da Universidade de São Paulo (USP), querem entender o que está nesta parcela de DNA que diferencia os brasileiros de outras populações. Mas essa missão não é fácil, já que: - ... O sequenciamento do DNA não é barato. As duas estimam que os 15 mil genomas que pretendem esquadrinhar saiam por R$ 28 milhões, algo inviável se...
- ... Empresas como Google e o laboratório Dasa não topassem financiar os 3 mil primeiros genomas. É um bom ponto de partida, mas...
- ... Está longe de ser ideal, já que países como EUA, Coreia do Sul e China já possuem bancos com 1 milhão de genomas. Por aqui, a ideia é chegar a 200 mil, o que já confere bom poder estatístico. Afinal...
- ... Estes dados serão usados para traçar as raízes ancestrais do brasileiro (de onde vêm nossos genes?) e quais são nossas predisposições genéticas a desenvolver doenças e como nosso DNA se comporta quando submetido a alguns medicamentos.
Se você ficou curioso, pode colocar na agenda. A primeira baciada de genomas sequenciados sai em 2020, mas é bom ficar preparado. Por que é importante?O genoma pode trazer algumas verdades inconvenientes. Conversei com Lygia e Tábita, sobre quais segredos nossos DNAs podem guardar. "A gente quer entender qual o risco de a população em geral desenvolver doenças comuns, como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer, Alzheimer, mal de Parkinson. Isso depende de milhares de variações no genoma, mas queremos saber quais genes desse conjunto aumentam ou diminuem a tendência de ter alguma dessas doenças", explica Lygia. Esse tipo de análise já é tão avançado em outros lugares que o processo é automatizado. "Para as populações caucasianas, já chegaram ao ponto de criar um algoritmo que calcula o risco genético de ter doença cardíaca. Você conhece o genoma da pessoa, vê as variantes genéticas que têm e pode categorizar essa pessoa em risco alto ou baixo." Tomar esse algoritmo emprestado ou usar os genomas dos europeus para realizar pesquisas sobre a gente simplesmente não funciona. Mas é o que fazemos há tempos. Pense que estamos nos medindo até agora com uma régua feita para o corpo de outro. Agora imagine o que não poderemos descobrir quando ficar pronta a régua genética "made in Brazil". Os remédios são elaborados para interagir com determinadas características genéticas. Se a nossa régua for diferente daquela usada para desenhar um remédio, poderemos descobrir da noite para o dia que um medicamento é imprestável para nosso genoma. Se tudo der certo, já é possível aguardar que uma revolução no nosso sistema de saúde está para começar. Não é bem assim, mas está quase láSó que revolução nenhuma nasce repentinamente na ciência. Lygia me disse que ela já pesquisava o uso de células-tronco em terapias gênicas no fim dos anos 1980, mas os tratamentos que usam esse conhecimento só começam a sair do laboratório agora. É bom ter em mente que os mais de 30 anos que separam uma coisa da outra são quase um piscar de olhos para o avanço científico. Ainda assim, não é algo para desanimar. Uma vez dada a partida, a evolução ocorre exponencialmente. Quer ver? Hoje em dia, já há terapias gênicas para tratar câncer. Funciona mais ou menos assim: por algum motivo, as células do sistema imunológico param de atacar o tumor, e a doença se espalha. A terapia consiste em retirar essas células, modificar o gene que não está funcionando direito e reinseri-la no paciente. Não é barato. Fica entre US$ 300 mil e US$ 500 mil. Bem caro. Pense, porém, que o sequenciamento do primeiro genoma durou 13 anos e custou cerca de US$ 3 bilhões. Atualmente, uma avaliação dessas fica pronta em três dia por algo como US$ 600. Se seguir esse ritmo, as terapias gênicas podem até não virar tratamento básico do SUS, mas deverão ficar mais baratas nos próximos anos. Toda essa discussão, porém, só fará sentido se possuirmos uma régua adequada ao tamanho do brasileiro. |
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