Feliz ano novo! Nesta primeira edição de 2020, vamos resgatar uma discussão que merece mais atenção no futuro: o ciberespaço é uma ameaça à paz mundial. Calma, não queremos te desanimar neste ano que mal começou, mas levantar a bandeira para um risco que novas (neste caso, nem tão novas) tecnologias podem representar. O que rolou?Você tem ideia dos danos que um ataque cibernético pode causar? Não estamos falando daquele hacker malicioso que rouba dinheiro a partir de golpes, mas de ataques oficiais, bancados por governos. Essas ofensivas em grande escala aumentaram durante os últimos dez anos, e dois casos são ilustrativos da força deles. No final de 2016, o norte de Kiev, capital da Ucrânia, teve seu fornecimento de energia elétrica cortado, uma consequência de uma série de ciberataques russos no conflito entre os dois países. Seis anos antes, uma instalação de enriquecimento de urânio iraniana teve suas atividades interrompidas. Os responsáveis não foram confirmados, mas suspeita-se de uma ação conjunta de Estados Unidos e Israel, desconfiados da atuação do Irã. Como muitas outras tecnologias, a internet tem uma enorme variedade de usos militares, mas apresenta um risco grande — e crescente — de afetar civis quando usada como arma. É por isso que o uso do ciberespaço voltou a ser um tópico de discussão entre países na ONU durante o segundo semestre de 2019, em dois fóruns separados: - Um Grupo Aberto de Trabalho, criado a partir de uma resolução russa...
- Um Grupo de Peritos Governamentais, criado a partir de uma resolução americana.
Os dois grupos foram aprovados pela Assembleia Geral da ONU, que envolve todos os países do órgão, mas são bem diferentes. O primeiro é mais inclusivo, já que conta com 193 estados-membro nas negociações e, como diz o nome, tem debates abertos. O segundo é um "clubinho" de 25 países poderosos, com reuniões fechadas e confidenciais para discutir esse tema espinhoso. A divisão ocorreu porque o último Grupo de Peritos sobre o tema — o quinto da história, realizado em 2017 — terminou sem consenso. Agora, em duas vias separadas, países buscam responder a uma pergunta em especial: o que é infraestrutura crítica? Por que é importante?O termo infraestrutura crítica merece o destaque pelo seguinte motivo: países concordam que ela é o que não deve ser um alvo de um ataque cibernético. O problema é que o significado de infraestrutura crítica pode variar de país para país. O Brasil, por exemplo, considera críticos os seguintes sistemas: - Reserva e fornecimento de água;
- Energia;
- Telecomunicações;
- Transporte; e
- Finanças.
A resposta a um ataque à infraestrutura crítica também varia de país para país. Para se ter uma ideia da força de possíveis retaliações, a última postura nuclear americana indica que armas atômicas poderiam ser usadas no revide. Todas essas incertezas significam uma ameaça à paz mundial, já que sem uma padronização entre países de qual é o limite dos ciberataques estatais, instabilidade e desconfiança ao rival (ou vizinho) ganham força. Como alento, por enquanto, temos que apenas países têm as ferramentas para ataques cibernéticos em grande escala. Olhando para o futuro, porém, esse risco vai se tornar ainda maior. 2019 marcou o início do 5G, tecnologia de telecomunicação que traz consigo o sonho das cidades inteligentes e ultraconectadas. Carros que andam sozinhos, semáforos que organizam o trânsito de acordo com o fluxo de veículos conectados, menos consumo de energia e água são alguns dos atrativos das cidades inteligentes, que prometem cenas dignas dos Jetsons. A partir de 2020, o 5G e as cidades inteligentes vão sair do campo das ideias para o mundo real, trazendo consigo novos alvos civis para ciberataques. Com menos proteções do que um sistema de distribuição elétrica, estes dispositivos de internet das coisas estão sujeitos a investidas de grupos criminosos e terroristas, que não precisarão do apoio de um país para gerar caos e afetar as vidas de pessoas. Essa ameaça traz urgência para que países deixem suas diferenças de lado e cheguem a acordos sobre o ciberespaço, mas desdobramentos recentes mostram que isso não será fácil. Na última sexta-feira de 2019, a China confirmou que seu concorrente ao GPS ficará pronto neste ano, uma novidade que mostra uma disputa de poder tecnológico e estratégico com os Estados Unidos. Dias antes, na mesma semana, a Rússia afirmou que seu teste de uma "internet paralela" deu certo, outro acontecimento simbólico das desconfianças entre potências mundiais. Não é bem assim, mas está quase láOs riscos da tecnologia sempre vêm acompanhados de previsões apocalípticas. O caso aqui não é diferente, mas ainda há tempo para que o pior cenário se concretize, principalmente porque o 5G não será adotado tão rapidamente. Na opinião de executivos, ele se tornará popular somente daqui cinco anos. O mesmo vale para cidades inteligentes, já que carros autônomos podem até chegar ao mercado, mas não substituirão a frota antiga de forma maciça, e poucos municípios vão ter recursos para revolucionar sua infraestrutura de uma hora para outra. Outra boa notícia é que, ao contrário do que ocorre normalmente, a iniciativa privada de diferentes partes do mundo quer mais regulamentação. A Microsoft, americana, chegou a sugerir uma espécie de Convenção de Genebra Digital. A Kaspersky, russa, endossou a proposta. Quem acompanha as discussões de perto na ONU se diz surpreso, já que empresas não gostam de amarras que atrapalhem seus negócios. Neste caso, regras seriam boas para proteger investimentos, vulneráveis em um contexto de instabilidade. Um tratado internacional à la Convenções de Genebra é visto como improvável, porque para isso sair do papel é necessário um consenso que não existe hoje. A tendência é a criação de um fórum de discussão permanente sobre estas questões, onde as divergências e desconfianças poderão ser amenizadas na base de conversas. No espírito do Ano Novo, desejamos que as negociações no Grupo Aberto de Trabalho e no Grupo de Peritos avancem, para que futuras edições dessa newsletter não falem dos perigos da tecnologia, mas dos inúmeros benefícios que elas trazem às nossas vidas. PSC: Em 2019, também escrevemos sobre outras ameaças tecnológicas à paz mundial. Você pode ler tudo aqui. |
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