A série "Round 6", da Netflix, fez muito sucesso no mundo todo. Mas, como essa newsletter trata de tecnologia e ciência, e não de entretenimento, vamos falar como essa febre sul-coreana suscitou uma ampla discussão sobre neutralidade da rede. Aliás, quem trouxe a questão à tona foi o colunista Carlos Affonso de Souza, de Tilt. Para quem não sabe, a tal neutralidade da rede determina que os responsáveis pela comunicação não devem tratar diferentemente um pacote de dados por conta da sua origem, destino ou tipo. Essa regra é lei no Brasil, já que a neutralidade da rede está prevista no Marco Civil da Internet, com algumas exceções. Na Coreia do Sul, país que produziu "Round 6", a questão da neutralidade da rede virou uma guerra que envolve os poderes legislativo e judiciário, além de grandes provedores de acesso nacionais e provedores de conteúdo estrangeiros, como a Netflix. Em jogo estão também o conceito de soberania digital e visões diferentes sobre desenvolvimento econômico. 
"Round 6" fez tanto sucesso que milhões de pessoas acessaram o Netflix para maratonar a série. É bom lembrar que a plataforma é online. Os provedores de acesso à internet sul-coreanos é que tiveram de se virar nos trinta para garantir que todos os seus internautas possam assistir a série em alta qualidade. E que isso custa caro. Os provedores dizem que as plataformas de streaming têm que pagar a conta. Mas, a Netflix, por exemplo joga a responsabilidade de volta ao colo das empresas que fornecem o acesso. É bom lembrar que a Coreia do Sul é um país que se desenvolveu economicamente com a ascensão de grandes conglomerados empresariais, chamados de chaebols, que são geralmente controlados por uma família. Esses grupos exercem uma grande pressão no governo. Em 2020, o congresso sul-coreano chegou a aprovar uma lei que dava direito aos provedores de acesso de cobrar uma "taxa por serviços de rede" de empresas fornecedoras de conteúdo com mais de um milhão de usuários no país. Essa relação entre provedores de acesso locais e companhias estrangeiras já foi testada no Judiciário sul-coreano. Em julho de 2019 uma Corte de Seul decidiu que, dado o aumento de volume de acessos à Netflix, a plataforma de streaming devia efetuar um pagamento extra ao provedor SK Broadband. A empresa norte-americana recorreu da decisão. Agora, com o sucesso de "Round 6", uma nova ação foi proposta para obrigar a Netflix a pagar pelo aumento de tráfego gerado. Em sua defesa, a companhia argumentou que está dedicada a produzir conteúdo audiovisual na Coreia do Sul e que suas séries, além de exportar a cultura sul-coreana para o mundo, geram empregos na região. De modo geral, o argumento contrário ao pagamento da taxa por serviços de rede na Coreia do Sul passa pela noção de que isso poderia levar os provedores de acesso a receber em dobro pela mesma atividade. A Netflix passou a investir em uma solução de hardware chamada Open Connect Appliances, que ajuda essas empresas a rotearem o tráfego de rede de forma mais barata e rápida.

A Coreia do Sul virou por tudo isso um capítulo importante na discussão global sobre neutralidade da rede. Por lá, com a nova regulação, nem todos os pacotes de dados que circulam na rede recebem, em regra, o mesmo tratamento. Se a moda pega, sabe-se lá quais taxas extras podem começar a aparecer para que provedores possam levar seus clientes até os sites que eles queiram visitar. Vamos ficar de olho.

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