sexta-feira, 20 de março de 2020

POLITICANDO: Isolamento no poder

E mais: um deputado nada diplomático e a volta dos panelaço
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BRASÍLIA,  20 DE março de 2020
O presidente Jair Bolsonaro durante fórum em Abu Dhabi Foto: Satish Kumar/Reuters
Coronavírus: o isolamento no poder
POR Eduardo Bresciani
coordenador na SUCURSAL DE BRASÍLIA
Olá.

Em tempo de coronavírus, como todos sabem, a regra é o isolamento. Mas no poder essa palavra tem mais de um significado.

Por exemplo, já são 22 os integrantes da comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro infectados pela doença. Dois são ministros de estado: Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Bento Albuquerque (Minas e Energia). No caso deles, a palavra isolamento tem o sentido médico: ficar em casa, sem contato com ninguém, para evitar a proliferação do vírus.

O presidente Jair Bolsonaro já se submeteu a dois testes e divulgou que ambos tiveram resultado negativo. Seus médicos tinham recomendado que ele ficasse em casa e evitasse aglomerações. O presidente não obedeceu. No domingo passado foi às ruas, cumprimentou e tirou selfies com apoiadores. Atuou como se nada diferente estivesse acontecendo. Durante a semana, seguiu seu ritmo e comandou várias reuniões, algumas com a presença de vários ministros. Na terça-feira recebeu Heleno duas vezes em seu gabinete. À noite, quando comemorava seu segundo resultado negativo, recebeu a informação de que seu auxiliar estava infectado. Até então, o presidente minimizava a crise de saúde sempre que podia, alegando maior preocupação com o impacto econômico.

Na mesma noite, o governo anunciou o envio ao Congresso de um projeto declarando calamidade pública , o que permitirá aumentar os gastos públicos para enfrentar o problema, sem incorrer no risco de cometer crime de responsabilidade. No dia seguinte, ofereceu uma imagem diferente, no que se supunha ser uma amostra de uma virada de postura para o combate da pandemia. Ao lado de nove auxiliares, todos de máscaras, Bolsonaro comandou o anuncio de diferentes medidas. A cena, inusitada e um tanto teatral, teve repreensão de especialistas por diversos erros, como a distância entre os ministros e o manuseio constante das máscaras. O presidente até adotou um tom mais preocupado naquele dia, mas depois voltou a minimizar os efeitos do coronavírus na saúde em lives e entrevistas no Palácio da Alvorada.  É de lá que  sai todos os dias para dar expediente no Planalto, ignorando a recomendação de ficar em isolamento preventivo.

Enquanto recusa-se a ficar em casa, o presidente cada vez mais vem sendo vítima de outro isolamento: o político. Na segunda-feira, os presidente do Supremo, da Câmara e do Senado preferiram debater sobre coronavírus com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro não foi convidado e irritou-se com o auxiliar por, na sua visão, ter “caído em uma armadilha”. Governadores também têm isolado o presidente, que reluta em adotar medidas mais drásticas contra a crise. Enquanto em vários estados diversas atividades vêm sendo suspensas, Bolsonaro só decidiu pelo fechamento de fronteiras quando boa parte dos países vizinhos já tinha adotado a medida em relação ao Brasil.
Vale a leitura:
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Um deputado nada diplomático

O deputado federal Eduardo Bolsonaro quis ser embaixador e fracassou. O episódio em que buscou culpar a China pela pandemia do coronavírus evidencia que talvez lhe falte mesmo vocação para a função. Ainda que por meio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, tenha havido uma defesa do filho do presidente, no governo as críticas foram das mais variadas. Na crise, o governo busca ajuda justamente da China para conseguir máquinas e equipamentos para o enfrentamento da doença. Isso sem contar o setor agrícola que busca manter a relação com os chineses em paz para reduzir ao mínimo o contágio econômico da crise para o agronegócio.
 
A volta dos panelaços
 
Confinados em casa pelo coronavírus, os brasileiros voltaram a usar as panelas nesta semana como forma de protesto. O ato ficou famoso e se generalizou no processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A maioria que foi às janelas com o recipiente neste semana demonstrou insatisfação com o presidente Jair Bolsonaro, que o tempo inteiro tenta jogar politicamente usando o apoio popular que possui. Se o movimento foi esporádico ou se será o começo de uma onda maior de contestação maior ao governo ainda é cedo para prever, mas o sinal de alerta no Planalto já está aceso.
 
A montanha pela frente
 
Enquanto precisa se contorcer para fazer seu trabalho sem entrar em conflito com o chefe, o ministro da Saúde tem comparado o caminho que a epidemia terá no Brasil ao de uma montanha . Mandetta afirma que as ações adotadas agora é que decidirão se teremos de passar por um “monte Everest”, o que provocaria muitas perdas de vidas, ou pelas “montanhas de Minas Gerais”, caminho também árduo, mas com menos mortes. Ainda no pé do monte, como ele definiu, o ministro está na fase do trabalho interno de convencer o presidente e alguns integrantes da equipe que a caminhada é inevitável e que a prevenção agora é que impedirá que falte ar ao país depois.
 
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