Assim como nos Estados Unidos, conservadores do Brasil revivem o discurso de que as redes sociais os perseguem sempre que alguma delas aplica uma medida para combater desinformação. É que, não raro, os posts deles vão para berlinda. Nas últimas semanas, eles nem se esforçar muito. As próprias plataformas deram um pretexto de bandeja: suspenderam figuras proeminentes do bolsonarismo para, posteriormente, dizer que foram erros técnicos. A ação não passou despercebida pelo presidente Jair Bolsonaro, que requentou a ameaça de editar um projeto de lei para limitar o poder de Facebook, YouTube, Twitter e similares na hora de decidir o que fica no ar.

Não é de hoje que as redes sociais deixaram a vista grossa de lado e passaram a agir contra posts que espalham mentiras e discurso de ódio. Nesta semana, parecia que era o caso. Mas só parecia, porque: - Os vídeos do Terça Livre, do notório espalhador de fake news Allan dos Santos, sumiram. Nada novo, já que...
- ... O conteúdo do canal foi removido no começo de 2021 por violar regras da plataforma ao sugerir que houve fraude nas eleições norte-americanas. Só que...
- ... Desta vez, a culpa foi do YouTube. Um problema técnico, disse, fazia alguns canais parecerem não ter vídeos. Mas eles estavam lá...
- ... Bastava, informou a plataforma do Google, pesquisar, checar na página inicial ou conferir a área para criadores, e o conteúdo seria achado. Foi o que bastou para...
- ... Allan Santos atribuir ao sumiço "mais uma afronta do YouTube ao Poder Judiciário", já que ele trava na Justiça uma guerra de liminares com o Google. Em julho...
- ... O erro partiu do Facebook. A rede social suspendeu o perfil do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) após remover uma publicação em que ele citava frases atribuídas ao líder nazista Adolf Hitler (1889-1945). Só que...
- ... O Facebook admitiu que não havia problema com a publicação e restaurou a conta. Não deu muitos detalhes, porque...
- ... Eduardo e Facebook brigam na Justiça, que chegou a proibir a rede social de excluir um post do parlamentar em que ele critica a revista Época e alguns de seus jornalistas e diretores.

Erros acontecem. Mas a pisada na bola das redes sociais justamente contra Eduardo Bolsonaro e Allan dos Santos dá munição a quem acha que a balança pende mais para um lado. Tanto que o presidente usa isso nos seus frequentes disparos contra estas plataformas. Os últimos vieram em tom de ameaça, durante entrevista a uma rádio. Nesta semana, nós enviarmos um projeto bastante curtinho para dentro do Parlamento. Mais ou menos nos seguintes termos, baseado em dispositivo do artigo 5º da Constituição, sobre as garantias e direitos individuais (...) Um deles é a liberdade de expressão. Fazer com que qualquer matéria sua, de quem está nos ouvindo aqui, só possa ser retirada dessas páginas [nas redes sociais] por decisão judicial e ponto final Jair Bolsonaro, presidente do Brasil Hoje, a moderação de conteúdo é feita pelas próprias redes sociais, que vira e mexe enfrentam críticas por demorar demais a tirar algo ofensivo e prejudicial do ar. Foi assim quando um atirador entrou em duas mesquitas e transmitiu ao vivo a execução de 49 pessoas.

No Brasil, essa moderação é contestada, mas encontra respaldo na lei. O Marco Civil da Internet impede que as empresas de internet sejam responsabilizadas judicialmente por conteúdos publicados em suas plataformas, o que só pode acontecer se descumprirem alguma determinação da Justiça. Não é a primeira vez que Bolsonaro acena com a possibilidade de mexer neste dispositivo. Em maio, ele prometeu um decreto, que não veio. Até a publicação deste texto, também não chegou ao Congresso o projeto sugerido nesta semana. O presidente tenta ainda construir um paralelo com a situação dos norte-americanos: Vai acontecer exatamente o que vimos nos Estados Unidos. Onde quem apoiava o [ex-presidente Donald] Trump era censurado, e quem não apoiava era exaltado É bravata. Diversos estudos já comprovaram que não há perseguição. Para além das ameaças, o perigo real desses deslizes das redes sociais é jogar no descrédito ações sérias para debelar campanhas criminosas de informação falsa. Exemplo é a que o Facebook promoveu nesta semana contra uma rede, flagrada afirmando que as vacinas da AstraZeneca transformavam quem a tomasse em chipanzés e as da Pfizer tinham altas taxas de mortalidade. Tudo mentira, além de um desserviço em meio a uma emergência sanitária. 
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